Da coleta e colheita do açaí nas palmeiras à transformação em sorvete, o produto passa por um processo que envolve diversas etapas e trabalhadores, desde os extrativistas e produtores rurais, passando pela indústria até o comércio. Todas as etapas (extração de recursos, a fabricação, o transporte e a venda) formam a cadeia produtiva do fruto e são fundamentais para que o produto gere renda e desenvolvimento econômico.
O açaí, assim como outros produtos regionais, tem potencial para gerar uma nova matriz econômica baseada nas potencialidades naturais, mas a base econômica do estado ainda se concentra na ZFM (Zona Franca de Manaus), que abriga cerca de 500 empresas e gera 120 mil empregos diretos. Esse potencial é reconhecido pelo poder público há décadas, tanto que, em 2002, foi estruturado em Manaus o CBA (Centro de Bionegócios da Amazônia), anteriormente chamado de Centro de Biotecnologia da Amazônia.
Entretanto, mesmo com a estrutura para realizar pesquisas sobre as potencialidades dos recursos naturais, pouco se progrediu nesse segmento. A inexistência de direcionamentos tanto para o extrativista quanto para a indústria dificultou a transformação dessas potências em retorno econômico.
De acordo com a economista Michele Aracaty, o açaí, que se tornou um dos produtos naturais de destaque do Amazonas, conseguiu ter uma cadeia produtiva estruturada após muitos anos, e ainda enfrenta os desafios dos gargalos do estado, como infraestrutura e logística.
“Conhecido nacional e internacionalmente, o açaí já alcançou um patamar dentro da bioeconomia que causa destaque em relação a outros produtos da região. Ele tem produtividade, possui uma cadeia produtiva estruturada, que começa no Pará e se estende até o Amazonas, e é utilizado em diferentes setores, como a indústria de cosméticos e a indústria alimentícia, além de outros segmentos ligados aos bionegócios”, afirmou.
“O açaí superou o gargalo dos fatores de produção. O que chamo de gargalo dos fatores de produção está relacionado à oferta. A produção começa no Pará e, após o término da colheita naquele estado, passa para o Amazonas. A soma do que é colhido nesses dois estados abastece o mercado local, regional, nacional e internacional”, completou.
Conforme a economista, para que o açaí e outros produtos regionais tenham potencial de gerar uma nova matriz econômica, é necessário estruturar um modelo organizado, com suporte do poder público, capaz de concentrar recursos de forma estratégica, atrair investimentos e fortalecer a atuação dos órgãos de assistência técnica.
Para garantir essa organização, os estados podem elaborar os planos de bioeconomia, que fixarão diretrizes, prioridades e ações para estruturar cadeias produtivas baseadas na biodiversidade. O documento orienta políticas públicas, define setores estratégicos e prevê instrumentos como incentivo à pesquisa, apoio à inovação, assistência técnica e mecanismos de financiamento.
Conforme a economista, a definição das cadeias no plano é fundamental para viabilidade econômica, inclusão social, sustentabilidade e rastreabilidade dos produtos. “Sem essa definição clara, corremos o risco de perpetuar um modelo de extrativismo desorganizado, sem escala e com impacto irrelevante no PIB regional”, afirmou Michele, que também professora da Ufam (Universidade Federal do Amazonas).
Em resposta, a Sedecti informou que a estruturação das cadeias produtivas está prevista como uma das etapas de execução do plano. Entre as ações previstas estão a elaboração de protocolos comunitários e certificações específicas, além da implantação de polos e hubs de bioeconomia, que devem detalhar tecnicamente as cadeias em nível regional.
A secretaria também afirmou que serão publicadas agendas regulatórias com prazos e responsáveis para regulamentar normas voltadas às cadeias produtivas.
De acordo com a economista, outras cadeias produtivas no Amazonas podem reproduzir o “efeito açaí”, como castanha-do-brasil, guaraná, copaíba e andiroba, que também apresentam potencial e precisam estar previstas em um plano.
“Mesmo com limitações de infraestrutura e logística, o açaí conseguiu alcançar o mercado internacional. Isso demonstra que o mesmo pode ocorrer com outros produtos da bioeconomia amazônica”, afirmou a professora.
“A expectativa é que outros produtos, especialmente aqueles identificados no plano de bioeconomia como as 14 cadeias produtivas , possam seguir o mesmo caminho. Assim, em vez de termos apenas o açaí como referência de sucesso, poderemos ampliar esse cenário para outros produtos da Amazônia”, completou.
Plano de Bioeconomia
No dia 1º deste mês, na 319ª reunião ordinária do Codam (Conselho de Desenvolvimento do Estado do Amazonas), o então governador do estado, Wilson Lima (União Brasil), lançou o Plano Estadual de Bioeconomia, o Plan-Bio, com 133 páginas, e assinou o decreto com as diretrizes.
Wilson classificou o documento como um marco estratégico que orienta a transição da economia amazonense para um modelo sustentável, inclusivo e inovador.
O plano estabelece diretrizes gerais para a concretização dos objetivos, sem mencionar as principais cadeias produtivas do Amazonas. O texto indica que o estado deverá priorizar setores como agroextrativismo e produtos florestais não madeireiros; biotecnologia e bioindústria; bioenergia e biocombustíveis; ecoturismo e serviços ambientais; agricultura sustentável e sistemas agroflorestais; e tecnologias de informação e comunicação (TIC) aplicadas à bioeconomia.
Tanto o plano como o decreto preveem que projetos e iniciativas sustentáveis relacionados à bioeconomia poderão ser financiados por um fundo que deverá ser criado a partir de uma lei.
Para a professora Michele Aracaty, o plano está em “fase de transição entre o planejamento estratégico e a aplicação prática no que tange à geração de emprego e renda a partir da economia verde”.
A economista afirmou que, ao longo da construção do plano, foram mapeadas 44 cadeias produtivas. Destas, 14 foram identificadas como prioritárias, enquadradas em setores como alimentos e bebidas; higiene, limpeza e cosméticos; fitoterápicos, fitofármacos e nutracêuticos; artesanato e artefatos; e madeira e móveis.
Apesar de identificar as potências da região, o governo não as incluiu de forma específica no plano. O documento define um espectro de bioeconomia com algumas formas de produção semelhantes às de outros planos (estaduais ou federais), adotando abordagens comuns na área.
Procurada, a Sedecti (Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação) afirmou que a ausência de detalhamento das cadeias produtivas no documento principal decorre da adoção de um modelo de gestão por resultados. Segundo a secretaria, o plano foi estruturado como uma estratégia macro de governança, funcionando como um “guarda-chuva” normativo, com foco inicial na consolidação da base legal e dos mecanismos de financiamento.
De acordo com a pasta, a prioridade foi estabelecer fundamentos jurídicos e institucionais, além de instrumentos como mecanismos de financiamento e incentivos à inovação. O detalhamento das cadeias produtivas, segundo a secretaria, deverá ocorrer em etapas posteriores.
A professora afirma que a definição das cadeias produtivas no plano é fundamental para garantir viabilidade econômica, inclusão social, sustentabilidade e rastreabilidade dos produtos. Ao estabelecer essas cadeias prioritárias, o estado não apenas viabiliza a execução do plano, como também retira a bioeconomia do campo das ideias, transformando-a em ação concreta.
“Essa priorização concentra os recursos disponíveis de forma estratégica, facilita a atração de investimentos, inclusive estrangeiros, e fortalece a atuação dos órgãos de assistência técnica, que poderão oferecer treinamentos específicos e acompanhar de perto o desenvolvimento das cadeias”, afirmou a professora. “Além disso, uma definição clara permite planejar uma logística mais eficiente, enfrentando um dos principais gargalos da região”, completou.
Diferentemente do Amazonas, o estado do Pará detalhou, em seu plano de bioeconomia, produtos estratégicos e sua participação na produção nacional. Já o plano amazonense apresenta diretrizes gerais, o que levanta questionamentos sobre o nível de definição das prioridades econômicas do setor.
Sobre esse ponto, a Sedecti afirmou que os investimentos serão orientados por critérios técnicos, como potencial de agregação de valor, inserção em compras públicas sustentáveis e repartição de benefícios. Também serão considerados fatores sociais, como a inclusão de mulheres, jovens, agricultores familiares e comunidades tradicionais, além do impacto ambiental dos projetos.
Apesar da lacuna, a professora avalia que o plano representa um avanço em termos de planejamento de futuro e de políticas públicas. “No entanto, o documento ainda está em fase de transição entre o planejamento estratégico e a aplicação prática, especialmente no que diz respeito à geração de emprego e renda a partir da economia verde”, disse Aracaty.
Cadeias prioritárias
Em 2022, um estudo técnico sobre as cadeias de valor da sociobiodiversidade relevantes do Amazonas publicado pela Sedecti (Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação) listava as principais cadeias produtivas.
Para fazer o mapeamento, o governo estabeleceu cinco critérios de priorização: econômico, territorial, social, setorial e investimentos. Cinco produtos atenderam todos os critérios: Açaí, Castanha-do-Brasil, Guaraná, Copaíba e Andiroba.
No caso do açaí, por exemplo, ele é produzido tanto por extrativismo (coleta de palmeiras nativas) quanto por cultivo (plantio planejado). As duas formas de produção se concentram na calha dos rios Negro e Solimões (14 municípios), onde o cultivo responde por até 85% da produção estadual.
Em Presidente Figueiredo, por exemplo, a produção do açaí cultivado é 99,9% maior que o extrativista. Em Humaitá, 82%; Borba, 75%; Tapauá, 61%; Nova Olinda do Norte 55%; e Carauari, 54%. A produção do Açaí extrativista é maior nos municípios de Benjamin Constant 84%, Codajás 64%, Manicoré 60% e Anori 58%.
Segundo o Idam (Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas), os dez municípios que se destacam na produção de açaí são: Codajás, Manicoré, Presidente Figueiredo, Carauari, Humaitá, Benjamin Constant, Anori, Borba, Tapauá e Nova Olinda do Norte.
Para a Michele Aracaty, as cadeias identificadas serão objetivo de apreciação nas próximas fases do cronograma de execução. A ausência, segundo ela, pode atrasar, mas não chegará a comprometer a execução.
Execução do plano
Para Michele Aracaty, para que o Plan-Bio deixe de ser apenas um documento estratégico e passe a gerar resultados concretos, como renda e oportunidades no interior do Amazonas, é necessário avançar na organização das cadeias de valor e na conexão direta entre produtores locais e o mercado industrial.
Segundo a economista, isso significa estruturar melhor as etapas de produção, beneficiamento e comercialização, garantindo que os produtos da biodiversidade cheguem com qualidade e regularidade ao mercado.
Para a especialista, esse processo depende diretamente de investimentos em infraestrutura e logística. “A bioeconomia não pode existir sem a presença de infraestrutura e logística”, afirmou.
Sem estradas, portos, armazenamento adequado e sistemas de transporte eficientes, a produção local enfrenta dificuldades para ganhar escala e competitividade.
A economista também afirma que, no contexto amazônico, a infraestrutura precisa considerar a integração entre diferentes modais de transporte, como o fluvial, o rodoviário e o aéreo. Essa articulação é essencial para garantir o escoamento da produção ao longo de todo o ano, especialmente em uma região marcada por variações sazonais dos rios e desafios de acesso a áreas mais isoladas.
Sem essa integração logística, segundo ela, o risco é manter cadeias produtivas fragmentadas, com baixa capacidade de expansão e pouco impacto econômico. Por outro lado, com planejamento e investimentos adequados, a bioeconomia pode se consolidar como alternativa viável para diversificar a economia do estado e valorizar os recursos da floresta de forma sustentável.
Segundo a Sedecti, o plano tem horizonte de execução entre 2025 e 2030, alinhado ao ciclo do Plano Plurianual (PPA) 2024–2027, com previsão de avaliação intermediária em 2027. O monitoramento será contínuo, com relatórios trimestrais e anuais sobre o andamento das metas.
Entre os próximos passos, a secretaria destaca a ativação de um comitê gestor interinstitucional, a publicação de uma agenda regulatória com prazos para normas complementares e o lançamento de editais de fomento. Também está prevista a implementação de um painel público de indicadores para acompanhamento das ações.