Quase quatro mil mortes causadas pelo calor na Europa em 2026; secas extremas na Amazônia; enchentes em estados brasileiros; e degelo acelerado nas geleiras polares. Esses são alguns dos eventos mais recentes provocados pelas mudanças climáticas.
Em ano de El Niño, as condições que alteram o clima global reforçam a urgência de ampliar o debate sobre o tema, começando pela sala de aula. Nas escolas da Amazônia, professores buscam investir em educação climática para preparar as novas gerações a compreender os fenômenos, combater a desinformação e buscar soluções para os desafios ambientais.
“A escola desempenha um papel fundamental no combate às mudanças climáticas porque os estudantes convivem diretamente com a maior floresta tropical do mundo e com os impactos do desmatamento, das queimadas, da poluição dos rios e das mudanças no clima”, disse a professora de biologia Yanna de Castro Araújo, da Escola Estadual Dr. Isaac Sverner, localizada na zona leste de Manaus.
“A escola pode relacionar esses problemas ao cotidiano dos alunos, valorizando os saberes das comunidades locais e dos povos originários, além de incentivar práticas sustentáveis, como reciclagem, consumo consciente, conservação dos recursos hídricos e participação em projetos ambientais”, acrescentou a professora.
Nas aulas, a educadora demonstra os impactos das mudanças climáticas por meio de ações de combate ao aedes aegypti, o mosquito que se prolifera com mais intensidade a partir de efeitos climáticos extremos. Os alunos do 1º e 2º anos do ensino médio participam de atividades práticas que relacionam o regime de chuvas, a identificação de criadouros do inseto e os riscos de epidemias locais.
“O aquecimento global intensifica a velocidade de ciclo de vida do aedes aegypti devido sua plasticidade genética e alta capacidade adaptativa nos centros urbanos, aumentando a reprodução e a propagação de arboviroses como dengue, febre amarela, chikungunya e zika”, disse Yanna, que também trabalha um Itinerário Formativo de Aprofundamento sobre os efeitos do aquecimento global em comunidades tradicionais.
De acordo com o Instituto de Pesquisa Aerah House, 82% dos brasileiros acreditam que eventos como ondas de calor, enchentes e secas afetam a vida das pessoas no país; 54% afirmam terem sido impactados diretamente por problemas ambientais ou climáticos nos últimos anos.
Os esforços para desenvolver adultos mais responsáveis com o meio ambiente também mobiliza professores no IFAP (Instituto Federal do Amapá). Em cursos da área ambiental, os alunos aprendem como a mudanças do clima interferem no sistema de chuvas e no setor socioeconômico do estado.
“A gente consegue compreender fatores como chuvas em temporadas que não são normais, frentes frias chegando e falta da chuva. Isso muda, por exemplo, o ciclo fenológico das plantas. Quando eu falo em plantas, eu estou falando do agronegócio, da produção do feijão, de soja, de arroz e de milho. Também muda para o gado, que se alimenta disso, e para o nosso bolso”, disse Luan Silva, professor dos cursos de medicina veterinária, agronomia, técnico em agropecuária e técnico em agroecologia.
Ações e conhecimento
No Maranhão, o professor de geografia Denison Ferreira tenta aproximar os estudantes dessa discussão por meio de oficinas e palestras em escolas e vídeos nas redes sociais. De forma didática, ele explica para alunos da educação básica como a ação humana influencia a ocorrência de eventos climáticos nas cidades, a exemplo das enchentes que ocorrem em São Luís.
O professor avalia os impactos na fauna, na flora e nos litorais. Ele mantém um projeto que busca unir jovens para multiplicar conhecimento sobre a preservação do meio ambiente. Em 2025, essas ações alcançaram mais de 1.500 pessoas. Nas redes sociais, os vídeos do professor chegam a centenas de seguidores.
“A gente tem tratado esses problemas pensando no presente e no futuro, aproximando esses estudantes, construindo o conhecimento de maneira mais crítica, com o comprometimento com soluções. A gente precisa cobrar os políticos, buscar mais políticas públicas. A gente tem muito potencial, mas falta interesse”, diz.
“O tema das mudanças climáticas precisa ser abordado para além de datas comemorativas nas escolas. Precisa perpassar o cotidiano do aluno, da escola, da comunidade de uma maneira permanente”, afirma Denison.