Após ser alvo de uma charge considerada ofensiva, a líder indígena Vanda Witoto afirmou ter sido vítima de violência política de gênero. Em vídeo publicado nas redes sociais nesta terça-feira (10), ela criticou o conteúdo e disse que irá denunciar o caso. Vanda recebeu apoio do MDB, partido ao qual se filiou neste mês, e de parlamentares federais.
“No dia de hoje a violência política e de gênero chega ao meu corpo-território, às mulheres e a toda a sociedade do Amazonas de forma covarde, misógina e racista. Continuar abrindo caminhos para nós, mulheres, nos espaços de tomada de decisão política ameaça essa estrutura que quer nos ver submissas, que não reconhece a nossa potência e não aceita a nossa diversidade. Violência política não é piada, não é arte. É crime”, disse.
No dia 4 deste mês, o MDB realizou um evento em Manaus para formalizar a filiação de figuras políticas conhecidas, como os deputados Saullo Vianna e Adail Filho, o ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio Neto, o ex-prefeito do Careiro Nathan Macena e Vanda Witoto.
Após o evento, a editora Jara Comics publicou uma charge assinada pelo cartunista Gilmal. A ilustração mostra uma mulher com estereótipo indígena, em referência à Vanda, ajoelhada sobre grãos de milho diante de um homem que representa o senador Eduardo Braga, acompanhada da frase: “Ajoelhou, tem que rezar!”.
No vídeo divulgado nas redes sociais, Vanda afirmou que pretende formalizar denúncia e pediu apoio contra a violência política de gênero.
“Estamos construindo essa trajetória há pouco tempo e de forma coletiva, e não vão nos paralisar. Neste momento estamos encaminhando denúncia aos órgãos competentes. Pedimos apoio a toda a sociedade para enfrentar qualquer tipo de violência contra qualquer mulher. Seguiremos lutando e sendo voz para todas as mulheres que têm coragem de fazer essa caminhada política”, disse.
O MDB divulgou nota de repúdio ao que classificou como “manifestação machista contra a liderança indígena Vanda Witoto”. “O MDB do Amazonas manifesta repúdio à charge que circulou nas redes sociais contendo uma ilustração ofensiva e desrespeitosa contra a liderança indígena Vanda Witoto”, afirmou a direção da sigla.
O partido também declarou que a liberdade de expressão é um valor fundamental da democracia, mas não pode ser usada para “promover ataques de cunho machista, sexista ou que desrespeitem a dignidade das mulheres, especialmente de mulheres indígenas que têm papel relevante na vida pública e na defesa de suas comunidades”.
“Vanda Witoto é uma liderança reconhecida, que construiu sua trajetória com coragem, trabalho e compromisso com o Amazonas. O MDB se orgulha de tê-la entre seus quadros e reafirma seu respeito e solidariedade diante desse episódio”, informou o partido.
O presidente estadual do MDB, senador Eduardo Braga, também publicou vídeo prestando solidariedade à liderança indígena. “A minha amiga Vanda Witoto tem toda razão. Chega de violência contra a mulher, chega de misoginia, chega de discriminação. É hora de valorizarmos e respeitarmos os espaços da mulher também na política. Portanto, a minha solidariedade e o meu respeito à nossa companheira Vanda Witoto”, disse.
O deputado federal Saullo Vianna classificou a charge como “desrespeitosa, preconceituosa e misógina”. Segundo ele, outras figuras políticas poderiam ter sido alvo de críticas, mas o autor escolheu a única mulher que participou da filiação.
“Quero prestar minha solidariedade à Vanda Witoto. Ela foi vítima de violência política de gênero por conta de uma charge desrespeitosa, preconceituosa e misógina. Antes de ser uma figura pública inserida no contexto político do Amazonas, ela é mulher, filha, mãe e profissional”, afirmou.
“Além de tudo, essa pessoa é covarde. Poderia ter feito uma charge minha ou de outros companheiros que também se filiaram ao MDB, mas escolheu atacar uma mulher. Vanda, levante a cabeça e siga firme. É importante que outras mulheres também participem da política”, completou o deputado.
Leia a íntegra da nota do MDB:

Empublicação no Instagram, Gilmal se retrata. O cartunista defende seu estilo crítico, mas diz que a intenção não foi ofender a líder indígena. Confira a nota na íntegra:
Sobre a charge da Wanda Vitoto:
Desenho charges políticas desde 1994, quando comecei a publicar em jornais impressos e revistas de Manaus. Ao longo desse período, sempre mantive um estilo ácido e irreverente, característico da linguagem das charges, retratando e criticando a política do Amazonas.
Como de costume, frequentemente sou solicitado por veículos de mídia jornalística para desenhar charges e cartuns com conteúdo político, sempre com muita irreverência, acidez e humor. Desta vez, fui convidado a produzir uma charge sobre Wanda Vitoto, por membro indignado da legenda em razão de sua mudança partidária, após deixar a legenda à qual pertencia e migrar para o MDB.
A charge seria publicada em um grupo específico e fechado do partido segundo fui informado. Ressalto que, em nenhum momento, tive a intenção de denegrir a imagem ou desrespeitar a luta pelas minorias que Wanda vem historicamente defendendo e levantando como bandeira.
Não tive, e nunca terei, a intenção de ofender. Peço minhas mais sinceras e profundas desculpas a todos que, de alguma forma, se sentiram ofendidos com o conteúdo da charge.
Acreditei, durante muitos anos, que desenhar charges ácidas — como faço desde a década de 1990 e continuo fazendo até hoje — faz parte da própria linguagem das charges políticas no Brasil. Trata-se de um estilo marcado pela crítica, pela ironia e pela irreverência, que, inevitavelmente, causa, causou e sempre causará algum desconforto, especialmente em relação às atitudes dos próprios políticos, que muitas vezes se sentem incomodados diante de certas manifestações da liberdade de expressão.
No entanto, reconheço que a liberdade de expressão possui limites.
Reitero, de forma sincera, que em nenhum momento tive a intenção de ofender, e muito menos de ridicularizar qualquer personagem da política amazonense.
Com informações de Amazonas Atual