Em tempos de crise social, com abrigos superlotados e crianças sem atendimento adequado, o vice-prefeito de Manaus, Renato Júnior (Avante), conseguiu sintetizar a inversão de prioridades da atual gestão. Ao ser questionado sobre os R$ 155 milhões gastos pela Prefeitura com publicidade institucional, respondeu com ironia: “Jornalista precisa comer.”
A declaração foi feita durante a entrega de uma quadra esportiva no bairro Cidade de Deus, e gerou imediata reação negativa. O Ministério Público do Amazonas (MPAM) já havia apontado o contraste entre os investimentos milionários em propaganda e a falta de recursos para políticas públicas voltadas à infância e adolescência. Segundo o órgão, Manaus destina R$ 37 milhões a mais para publicidade do que para acolhimento de crianças uma realidade que dispensa ironias.
Em vez de explicar os gastos ou apresentar resultados concretos da comunicação institucional, Renato preferiu desviar o foco da pergunta, jogando a responsabilidade sobre os jornalistas:
“Essa é uma pergunta que tu tens que fazer pros teus colegas jornalistas, se eles acham muito. O jornalista precisa sustentar sua família.”
O problema é que a fala revela o que há de mais preocupante na relação entre o poder público e a imprensa: a confusão entre verba pública e favorecimento midiático. Publicidade institucional não é programa assistencial para jornalistas é ferramenta de transparência, e deve servir ao cidadão, não a relações políticas ou à manutenção de imagem.
Enquanto isso, o MPAM constatou graves falhas orçamentárias: ausência de previsão financeira para políticas de acolhimento, superlotação de abrigos e dependência excessiva de emendas parlamentares para custeio. A promotora Ynna Breves Maia Veloso, da 28ª Promotoria da Infância e Juventude, alertou que a omissão do Executivo municipal fere diretamente a Constituição e o Estatuto da Criança e do Adolescente.
“Quando o poder público deixa de agir para garantir os direitos das crianças e adolescentes, essa omissão já representa uma violação grave”, afirmou a promotora.
Enquanto o vice-prefeito fala em “alimentar jornalistas”, a cidade ainda engatinha em políticas de proteção à infância e coleciona denúncias de negligência social.
No fim, a frase de Renato Júnior diz muito mais do que ele gostaria: em Manaus, a prioridade não é a criança vulnerável é a propaganda. E isso, sim, é o que dá fome de verdade: fome de gestão, de responsabilidade e de vergonha na cara.