Com espaço ilimitado para textos e vídeos, as redes sociais são recurso de comunicação inesgotável para candidatos divulgarem propostas de políticas públicas. Mas formam também um território de desinformação, manipulação emocional e discurso de ódio. Cientistas políticos alertam sobre o mau uso da mídia digital na campanha das eleições gerais deste ano.
Para Paulo Niccoli Ramirez, cientista político e professor da Fesp-SP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), e Welton Oda, professor da Ufam (Universidade Federal do Amazonas), a extrema direita domina o ambiente online não pelo debate de ideias, mas pela manipulação emocional e pelo discurso de ódio. Os estudiosos analisaram como esse modelo de comunicação afasta as propostas concretas do debate e os riscos reais que geram para a democracia brasileira.
Nas últimas eleições, segundo os analistas, ficou difícil encontrar nas redes sociais um debate sério sobre políticas públicas. O que prevaleceu foi a desconstrução do adversário em vídeos, memes e postagens que atacam, ridicularizam ou difundem mentiras sobre opositores.
Para Paulo Ramirez, a internet não destruiu completamente o espaço público de debate. Segundo ele, “muitas pautas importantes também saem dela, como a questão da visibilidade LGBTQIA+ e o enfrentamento do racismo”.
De acordo com o professor, temas como a escala de trabalho 6×1, o aumento de impostos sobre os mais ricos e a isenção do IR para quem ganha até 5 mil reais ganharam força justamente pelas redes.
Mas o desequilíbrio é evidente. Paulo Ramirez afirma que a extrema direita opera com uma vantagem dupla: monetização massiva ligada às big techs hoje declaradamente conservadoras, especialmente após o alinhamento com Donald Trump e uma linguagem que fala diretamente às emoções.
“A direita usa recursos sofísticos, ou seja, de eloquência no discurso, mas com um conteúdo muito empobrecido”, resume o professor. Para ele, esse modelo se encaixa no conceito de pós verdade incorporado ao dicionário Oxford desde 2016 em que fatos objetivos e consensos científicos perdem importância diante de opiniões pessoais e sentimentos.
Religião e política
Segundo Welton Oda, antes das redes sociais a direita construiu sua base por outro caminho: as igrejas, especialmente as neopentecostais. De acordo com o professor, políticos conservadores passaram a associar toda a esquerda ao mal, ao aborto, às drogas, à libertinagem sexual muito antes da guerra digital. “Associar toda a esquerda ao mal precedeu toda a desconstrução atual”, diz.
O efeito sobre o eleitorado foi profundo. “Dominada pelas pautas morais, a população acabou desenvolvendo uma dissonância cognitiva que a impede de perceber que a economia melhorou porque tornou se incapaz de comparar, avaliar, perceber. Teve sua subjetividade sequestrada pelos moralistas”, afirma Welton.
Para Paulo Ramirez, os riscos à democracia se materializaram. O 8 de janeiro de 2023, quando apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro invadiram e depredaram o Congresso, o STF e o Palácio do Planalto é, segundo ele, o exemplo mais contundente de onde o discurso de ódio e a desinformação podem chegar.
“Isso prejudica a democracia, o funcionamento das suas instituições, e alavanca um apoio popular massivo contra a própria democracia, colocando em risco o próprio regime democrático”, afirma o cientista político.
Conforme Ramirez, mesmo após a derrota eleitoral, o bolsonarismo segue ativo nas redes. “Apesar do Lula ser o presidente e ter vencido, essa estratégia de difundir notícias falsas nas redes sociais continua em vigor, com muita força entre a extrema direita, deslegitimando o papel das instituições democráticas”.
Medo como ‘arma’ política
Na avaliação de Welton Oda, o fenômeno precisa ser entendido dentro de um contexto mais amplo. De acordo com o professor, o presidente dos EUA, Donald Trump, lidera um movimento para provocar um caos político global que favoreça a organização da extrema direita. No Brasil, os aliados desse projeto alimentam o medo e a desesperança como instrumentos políticos. “É por medo que muitos brasileiros acabam apoiando a invasão e a violência à soberania de países latinos, mesmo que eles próprios possam ser vítimas”, diz.
Para Oda, a subalternidade ao imperialismo, disfarçada de patriotismo, corrói direitos trabalhistas e a soberania econômica do país. Segundo o professor, a manifestação desse medo nas ruas pode ainda servir de pretexto para interferências externas. “Esse medo e essa subalternidade manifesta nas ruas por uns minguados bolsonaristas pode ser a desculpa perfeita para uma invasão imperialista”, alerta.
Tecnologia e bolhas ideológicas
Segundo Paulo Ramirez, o problema da desinformação na política não é novo. De acordo com ele, os filósofos Platão e Sócrates criticavam os sofistas da Grécia antiga por manipularem a opinião pública com eloquência vazia. “Esse problema já é conhecido. O que muda, de fato, são as tecnologias ou as formas de difusão dessas notícias falsas”, afirma.
A diferença hoje, conforme o professor da Fesp-SP, é radical. No passado, o eleitor precisava estar com a TV ligada no horário certo para receber uma mensagem política. Agora, segundo Ramirez, os algoritmos constroem bolhas ideológicas que identificam o perfil do usuário e o bombardeiam permanentemente fora do período eleitoral, durante os quatro anos entre uma eleição e outra.
“Essas tecnologias estão na palma da mão, o que significa dizer que torna mais fácil a manipulação do que qualquer outro período histórico”, alerta. De acordo com ele, quanto mais a mentira se repete, mais ela se consolida como verdade. “A mentira repetida se torna, na cabeça desse indivíduo, uma verdade. Esse é o grande problema”.
Conforme Oda, Lula é alvo de fake news desde 1989. Segundo o professor, naquele ano uma mulher foi supostamente subornada para afirmar que o então candidato havia oferecido dinheiro para abortar sua filha, episódio decisivo para a vitória de Fernando Collor. Mais de três décadas depois, o roteiro se repete. “A população não parece ter aprendido a lição”, lamenta.
Para 2026, o cenário preocupa ainda mais. De acordo com Oda, “os donos das big techs estarão apoiando a disseminação das fake news e boicotando os desmentidos e os políticos sérios”. Conforme o professor, a saída é retornar à comunicação direta com o eleitor, reduzindo a dependência das plataformas digitais.
Segundo Ramirez, o lema da direita radical vai além de um slogan eleitoral. De acordo com o cientista político, ele funciona como um mecanismo de exclusão e controle social.
“Ao definir quem são ‘os puros’, os verdadeiros brasileiros, os patriotas, os religiosos, o discurso neopopulista automaticamente elege inimigos. Você começa a excluir e a eleger como inimigo todos aqueles que se distanciam dessas características”, explica.
Conforme Ramirez, o paradoxo é que quem ataca o vizinho acaba atacando a si mesmo. “Os reais interesses da população são atacados por esta mesma população que defende as notícias falsas como verdadeiras”.
Segundo ele, saúde, educação, moradia e salários pautas concretas passam a ser vistas como “coisa de esquerda” e rejeitadas por quem mais precisaria delas. “Esse é um processo absoluto de alienação”, define.
Risco de nova inquisição
Para Oda, as consequências práticas são visíveis. Segundo o professor, o crescimento do feminicídio, da LGBTfobia e da intolerância religiosa são sinais concretos desse avanço. De acordo com Welton Oda, nas periferias, milícias religiosas formadas por evangélicos aliados à polícia impõem suas próprias leis. No Legislativo e no Judiciário, a bancada conservadora consolida poder. “O principal risco é essa volta de uma Inquisição”, resume.
“Não nos resta outra alternativa a não ser denunciar, em todos os canais possíveis, e nos mobilizarmos contra os retrocessos desse tipo de visão de mundo”, conclui Oda.
Conforme Paulo Ramirez, a maior dificuldade das democracias contemporâneas é combater uma desinformação que não se limita a momentos de crise, mas que é permanente, cotidiana e personalizada para cada eleitor. Segundo ele, “dentro da subjetividade da extrema direita paira esse tipo de divisão de mundo, em que as distorções das informações não têm nenhum outro prejudicado maior que este mesmo grupo que defende as notícias falsas”.