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Em meio a alta rejeição, David Almeida ensaia campanha nas redes sociais

Uso cruzado de perfis oficiais e pessoais do ‘prefeito influencer’ acendem alerta sobre estratégia política antecipada

Em meio à queda de popularidade e a avaliações negativas em pesquisas nacionais, o prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), deu início a uma ofensiva estratégica nas redes sociais que vai além da simples comunicação institucional. Com nova identidade visual, publicações cuidadosamente segmentadas e discurso focado em “expertise” administrativa, o ‘prefeito influencer’ passa a atuar de forma mais intensa no ambiente digital, movimento interpretado por especialistas e observadores políticos como uma preparação antecipada para a corrida eleitoral de 2026, quando ele é apontado nos bastidores como possível candidato ao Governo do Amazonas.

Embora David Almeida negue, até o momento, qualquer intenção de disputar outro cargo, o timing e o formato das ações chamam atenção. O reposicionamento ocorre após a divulgação de levantamentos como o da AtlasIntel, que colocam o prefeito como o segundo pior avaliado do País, entre as capitais, além de refletirem um cenário de desaprovação crescente em Manaus.

A estratégia não é inédita. Em 2024, durante o processo que culminou em sua reeleição, servidores e aliados foram apontados como operadores de uma rede paralela de comunicação digital, atuando fora das regras eleitorais tradicionais para impulsionar a imagem do prefeito de forma indireta. Agora, o método parece mais sofisticado.

Comunicação institucional ou construção de candidatura?


O novo modelo de atuação passa pela publicação de conteúdos com identidade visual oficial no perfil pessoal do prefeito, que depois são replicados nos canais da Prefeitura de Manaus. Tecnicamente, a prática não configura campanha antecipada, já que não há pedido explícito de voto nem menção direta a cargos futuros. No entanto, na prática, amplia o alcance, gera engajamento e constrói autoridade política, aproveitando-se da força das marcas institucionais e do capital simbólico do cargo.

As postagens são pontuais, com linguagem calculada, focadas em nichos específicos da população e em temas sensíveis da cidade, como obras, mobilidade urbana e serviços públicos. O objetivo aparente é reconstruir a confiança do eleitorado e reposicionar David Almeida não apenas como prefeito, mas como gestor experiente, capaz de “resolver problemas” em escala maior.

O objetivo é tentar evitar a tendência de alta da rejeição do gestor, em meio aos problemas na infraestrutura, trânsito, transporte público, buracos nas vias e os prejuízos provocados pelas chuvas com a falta de obras de drenagem profunda, entre outros problemas enfrentados pela população.

A escolha pelo ambiente digital não é aleatória. As redes sociais se consolidaram como principal campo de disputa política no Brasil, especialmente entre eleitores mais jovens e indecisos, menos vinculados a estruturas partidárias tradicionais. Além disso, o meio digital permite driblar intermediários, controlar narrativas e reagir rapidamente a crises, algo crucial para um gestor que enfrenta desgaste de imagem.

Outro fator é o custo-benefício. Diferentemente da propaganda tradicional, a comunicação online pode ser impulsionada por engajamento orgânico ou por redes de apoio informal, o que dificulta a fiscalização e a caracterização de irregularidades.

Mesmo sem confirmar candidatura, os sinais estão postos. A corrida de 2026 pode ainda parecer distante no calendário oficial, mas, no campo digital, ela já começou.

Em 2024, denúncias apontaram que servidores e aliados do prefeito utilizaram um canal paralelo às regras eleitorais para promover, de forma velada, a reeleição. Na manobra, secretários usaram as próprias redes sociais para propagar as ações da gestão municipal no período de conduta vedada para o candidato à reeleição.

Para o analista político e professor Luís Antonio, a estratégia digital não substitui a ausência de resultados concretos na cidade. Segundo ele, a reeleição de David Almeida ocorreu em um contexto específico e já não encontra o mesmo ambiente político favorável.

“Um candidato que está no cargo, em especial no caso do David Almeida, que foi reeleito, precisa primeiro ponderar em que momento ele foi reeleito e quais eram as candidaturas que estavam postas. Aquela onda conservadora passou. Todos os indicadores e pesquisas têm demonstrado isso”, analisa.

O professor destaca que não basta investir em estética e marketing político se a realidade cotidiana da população não acompanha o discurso.

“Não adianta fazer publicidade bonitinha, cheirosa, se ao final ele não mostrar resultados objetivos. O transporte público melhorou? As paradas estão em melhores condições? As pessoas esperam menos tempo pelo ônibus? A qualidade melhorou? Se a resposta fosse sim, ele teria o que entregar à população. Mas não é isso que está acontecendo”, afirma.

Na avaliação do analista, o contraste entre o que é exibido nas redes sociais e o que a população enfrenta diariamente é evidente.

“A cidade de Manaus está absolutamente abandonada. A não ser aqueles pontos que parecem aquela ideia da casa caindo aos pedaços, mas a pessoa linda e maquiada nas redes sociais. É isso que a prefeitura está fazendo”, critica.

Ele cita exemplos simbólicos, como obras pontuais e entradas monumentais, que não refletem a realidade da maioria da população.

“Você passa ali na Ponta Negra, vê um portal lindo, maravilhoso, parece que está entrando na Dinamarca. Mas quais são as condições objetivas das pessoas? São 300 pessoas acumuladas esperando um ônibus caindo aos pedaços. A cidade está suja, tem lixo por todo lado, ratos disputando espaço com gatos. A orla está uma possilga. Os ramais seguem abandonados.”

Para o professor, a tentativa de “esconder” os problemas por meio das redes sociais pode até funcionar por um período, mas tem prazo de validade.

“Talvez em algum momento isso funcione, mas não sei até quando isso vai funcionar”, pondera.

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